17/05/2021 às 13:21

Sobre o passado presente: fragmentos do cotidiano

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3min de leitura

Prof. Dr. João Heitor Silva Macedo[1]

Em São Borja ou em qualquer outro município em que houve uma das Reduções Jesuítico Guaranis em território do atual estado do Rio Grande do Sul, emerge um passado em fragmentos de cerâmica e pedras de Itacoru. É o passado presente.

O historiador alemão Reinard Koselleck, reedita um velho bordão historiográfico sobre o passado, ao referir-se sobre a presença do passado presente:“olhar para o passado, (re)significa o presente e projeta o futuro”, e assim nos da a perfeita dimensão da valorização do passado como forma de planejar o futuro. A paráfrase de Koselleck serve de inspiração para abordarmos o Patrimônio Histórico de São Borja-RS. Pensar nosso patrimônio, em especial o patrimônio arquitetônico, fruto de intensos debates recentes, não significa voltar ao passado, mas sim revisitá-lo, para projetarmos o futuro.

São Borja de um passado emblemático que remonta a era pré-histórica e tendo o início da ocupação humana por volta de 10.000 anos antes da era cristã pelos grupos de caçadores/pescadores/coletores, e no período colonial foi cenário do maior projeto humano Contra-Reformista, as Missões Jesuítico-Guaranis. São Borja nesse contexto tem sua posição estratégica respaldada pelos aspectos geográficos singulares.

A instalação dos Trinta Povos no Prata, são aspecto determinante na ocupação humana da região. Em São Borja, a expressão máxima deste contexto se deu com a construção de um imenso patrimônio arquitetônico que tem como ponto de partida a Igreja da Redução e um plano urbanístico que segue o modelo europeu Renascentista do século XV e que molda através de seus vestígios Os materiais a própria arquitetura recente da cidade de São Borja impulsionando uma série de transformações nos aspectos social, cultural e econômico ao longo do século XIX, XX e XXI. O Patrimônio herdado dialoga com as narrativas históricas da cidade, sedimenta lugares que caracterizam a importância histórica da cidade... caminhos de memória e de desenvolvimento.

Mas para além do legado da Redução de São Francisco de Borja, há um legado material que transcende o plano urbanístico da antiga Redução e extrapola a temporalidade da ocupação Guarani e Jesuítica, remetendo a um passado de quase 10.000 anos de ocupação humana constante. Os vestígios arqueológicos que comprovam essa ocupação emergem por toda a cidade e trazem a tona um legado que pertence a memória local.

Pensar a história de São Borja é também preservar sua arqueologia histórica e pré-histórica, pois são documentos materiais que denotam a importância da cidade no contexto platino desde sempre. Os vestígios matérias da história local são recursos didáticos excepcionais para o ensino de história nas redes municipal e estadual, pois através deles, as crianças e jovem tem acesso à uma história palpável e que faz parte da sua própria herança. São vestígios que são encontrados no cotidiano de todos e que se bem trabalhados são uma fonte de conhecimento e desenvolvimento social sem precedentes.

Preservar nosso patrimônio é dialogar constantemente com nosso passado e atribuir sentido a realidade sem perder de vista perspectiva futura, dando a ela um sentido de pertencimento que é compartilhado coletivamente por todos aqueles que vivem e amam São Borja.

[1] Historiador, Arqueólogo e Museólogo.

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arqueologia passado presente Reduções São Borja - RS

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